"Sim, me leva pra sempre, Beatriz Me ensina a não andar com os pés no chão Para sempre é sempre por um triz. Aí, diz quantos desastres tem na minha mão. Diz se é perigoso a gente ser feliz.

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Out 07

Volta-se o rico para os prazeres da carne e a maior parte do mundo faz o mesmo. E não sem acerto, porque todas as coisas agradáveis devem ser tidas como inocentes, e até que se provem culpadas todas as presunções pendem a seu favor. A vida já é bastante penosa para que ainda a agravemos com proibições e obstáculos aos seus deleites; tão arisca se mostra a felicidade que todas as portas por onde ela queira entrar devem permanecer escancaradas. A carne enfraquece muito precocemente - e os olhos olham com melancolia para os prazeres de outrora. Muito rápidamente todas as alegrias perdem a vivacidade - e admiramo-nos de como pudessem ter-nos interessado tanto. O próprio amor torna-se grotesco logo que atinge os seus fins. Guardemos o ascetismo para a estação própria - a velhice.
É este o grande drama do prazer; todas as coisas agradáveis acabam por amargar; todas as flores murcham quando as colhemos, e o amor morre tanto mais depressa quanto é mais retribuído. Por isso o passado parece-nos sempre melhor que o presente; esquecemos os espinhos das rosas colhidas; saltamos por cima dos insultos e injúrias e demoramo-nos sobre as vitórias. O presente parece muito mesquinho diante de um passado do qual só retemos na memória o bom, e diante de um futuro que ainda é sonho. O que alcançamos nunca nos contenta; «olhamos para diante e para trás em procura do que não está ali»; não somos bastante sábios para amar o presente do mesmo modo que o amaremos quando se tornar passado. Quando mergulhamos num prazer, o nosso olhar vai para longe - a felicidade ainda não está alcançada apesar de termos o deleite nos nossos braços. Que mau demónio nos afeiçoou assim?

Will Durant, in "Filosofia da Vida"

publicado por marisol2007 às 10:03
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comentário:
“Nunca se está bem onde se está…” ou “Aproveita o momento…” São estas as mensagens subjacentes ao magnífico texto, soberbamente escolhido por ti.
Encaro a primeira como o que melhor traduz a natureza humana: sonhar com o futuro, mistificar o passado e nunca se dar por satisfeita com o presente. A segunda, em meu entender, refere-se a algo muito pessoal: a forma como cada um de nós consegue, ou não, tirar o melhor partido das coisas que se nos deparam…
Um post magnífico que, a ser lido convenientemente, nos obriga a pensar.
Votos de uma magnífica noite!

Um beijo... :-)

V.A.D. a 17 de Outubro de 2007 às 01:43

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